A economia brasileira conta com mais de 21 milhões de empresas ativas, sendo 90% delas de natureza familiar. No entanto, dados do IBGE e do SEBRAE indicam que 60% das empresas encerram atividades antes de completar cinco anos de operação. Este artigo analisa as principais causas dessa mortalidade empresarial e apresenta os fundamentos do planejamento societário como ferramenta de gestão e longevidade.
O Cenário da Mortalidade Empresarial no Brasil
Segundo dados do IBGE (2022) e pesquisas do SEBRAE, apenas 37,9% das empresas brasileiras permanecem ativas após cinco anos de operação. A taxa de sobrevivência apresenta queda progressiva: do primeiro para o segundo ano, a redução é de 16,6 pontos percentuais; do segundo para o terceiro ano, outras 10,2 pontos, continuando em declínio até atingir 37,9% no quinto ano.
Este padrão é consistente independentemente do ciclo econômico, sugerindo que fatores estruturais internos — não apenas externos — determinam a longevidade empresarial.
Disparidades por Porte e Setor
A mortalidade empresarial não afeta uniformemente todos os tamanhos de negócio. Microempreendedores Individuais (MEI) enfrentam taxa de fechamento de 29% em cinco anos. Microempresas apresentam taxa de 21,6%, enquanto pequenas empresas atingem 17%. Este gradiente evidencia que quanto menor e menos estruturada a empresa, mais vulnerável à descontinuidade operacional.
Por setor, o Comércio apresenta a maior taxa de mortalidade (30,2% em 5 anos), seguido pela Indústria de Transformação (27,3%) e Serviços (26,6%). Setores como Indústria Extrativa (14,3%) e Agropecuária (18%) exibem maior resiliência, possivelmente associada a barreiras de entrada maiores e estrutura de capital mais robusta.
Empresas Familiares: O Desafio da Sucessão
Empresas familiares representam 90% dos negócios nacionais, geram 65% do PIB e empregam 75% da força de trabalho privada. Apesar dessa relevância, dados indicam que apenas 30% chegam à segunda geração, 12% alcançam a terceira geração e menos de 3% chegam à quarta geração.
A transição geracional representa o momento de maior vulnerabilidade para empresas familiares. As causas incluem conflitos sucessórios, resistência do fundador em compartilhar poder, falta de preparo dos herdeiros e ausência de estrutura de governança.
Principais Causas de Encerramento Empresarial
Pesquisas do SEBRAE e de instituições especializadas identificam as cinco principais causas de encerramento empresarial no Brasil:
Capacidade Gerencial Inadequada (49%): Falta de profissionalização, conhecimento ou experiência. Dados indicam que 68% das empresas funcionam sem nenhuma consultoria, apoio técnico ou trabalho de orientação profissional.
Falta de Planejamento Financeiro (48%): Descontrole de fluxo de caixa e ausência de projeções financeiras estruturadas.
Ausência de Planejamento Sucessório (44%): Inexistência de estrutura de transição geracional. Apenas 30% das empresas identificam e desenvolvem profissionais capazes de assumir cargos-chave.
Conflitos Internos e Familiares (42%): Rivalidades entre sócios, falta de governança e interferência de fatores pessoais nas decisões empresariais.
Gestão Tributária Inadequada (30%): Falta de otimização fiscal legal e desconhecimento de alternativas tributárias.
O Paradoxo do Crescimento Desordenado
Um fenômeno particularmente relevante é o crescimento desordenado sem estrutura. Pesquisas indicam que apenas 10% das médias empresas brasileiras possuem planejamento de longo prazo formal. Muitas crescem rapidamente em faturamento, mas deterioram silenciosamente em saúde operacional e financeira.
Quando uma empresa entra em fase de crescimento acelerado, ocorrem simultaneamente: aumento exponencial de custos operacionais que cresce mais rápido que a receita, abandono progressivo de processos formais, centralização de decisões que não acompanha a complexidade crescente da operação, e deterioração de margens de lucro mascarada por crescimento de faturamento.
Estudos indicam que 80% das empresas que crescem rápido sem revisar suas estruturas internas enfrentam quedas relevantes de desempenho. A redução percentual de margem é invisível em um cenário de faturamento crescente, mas coloca a empresa em risco severo quando ocorrem choques externos.
O Que é Planejamento Societário
Planejamento societário é um processo integrado de análise, escolha e implementação da estrutura jurídica, organizacional, tributária e sucessória adequada aos objetivos de uma empresa. Diferencia-se de planejamento jurídico comum por ser fundamentalmente estratégico: busca não apenas conformidade legal, mas organização de recursos, proteção patrimonial, facilitação de crescimento e preparação para transições estruturais.
Componentes Essenciais
Estrutura Jurídica Apropriada: Escolha do tipo societário (LTDA, SA, SLU, Sociedade Simples) baseada em porte da empresa, perspectiva de crescimento, necessidade de captação de investimentos e perfil de responsabilidade desejado.
Documentação Contratual Clara: Contrato ou Estatuto Social com cláusulas precisas sobre administração, processo decisório, distribuição de lucros, quóruns de deliberação e regras de entrada e saída de sócios.
Acordo de Sócios: Instrumento complementar que detalha exercício do direito de voto, política de distribuição de dividendos, cláusulas de proteção em alienação e resolução de conflitos entre sócios.
Governança Corporativa Adaptada: Estrutura de tomada de decisão com separação clara entre propriedade e gestão, mesmo em empresas de menor porte.
Planejamento Tributário: Alinhamento do regime tributário com receita operacional, estrutura de custos e perfil de rentabilidade.
Estratégia Patrimonial e Sucessória: Estruturação para separação entre patrimônio pessoal e empresarial, facilitação de sucessão e reorganização societária futura.
Governança Corporativa: Fundação da Sustentabilidade
Conforme o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), governança corporativa é um sistema formado por princípios, regras, estruturas e processos pelos quais as organizações são dirigidas e monitoradas. Os quatro pilares são: transparência, prestação de contas, equidade e responsabilidade corporativa.
Uma estrutura de governança eficaz compreende: Assembleia Geral de Acionistas/Sócios para diretrizes estratégicas; Conselho de Administração para orientação geral dos negócios; Diretoria Executiva para implementação de estratégias; e Conselho Fiscal para fiscalização econômico-financeira.
Em empresas familiares, a governança enfrenta desafio adicional: a confluência de três sistemas distintos — o familiar (baseado em laços afetivos), o patrimonial (baseado em propriedade) e o empresarial (baseado em competência). A solução requer conselhos com composição mista, protocolos familiares que definem regras para entrada e saída de familiares na gestão, e separação clara de papéis.
Pesquisas indicam que empresas que adotam conselhos de administração profissionalizados apresentam maior expectativa de longevidade.
Sucessão Estruturada: Preparação para Transições
A maioria dos sócios e fundadores brasileiros evita ativamente falar em sucessão, por temor de perder controle e relevância, conflitos familiares ou incapacidade técnica de iniciar o processo. Essa inércia é um dos principais fatores de mortalidade empresarial na transição geracional.
Os obstáculos recorrentes em sucessão familiar incluem: concentração de poder no fundador, rivalidade entre herdeiros, falta de preparo técnico dos sucessores, comunicação ineficaz sobre expectativas, interferência de cônjuges e falta de regras para entrada e saída de membros familiares da gestão — 50% das empresas não possuem tais protocolos.
Etapas de um Planejamento Sucessório
Diagnóstico e Visão de Futuro: Avaliação do estado atual da empresa, definição clara do que se quer para os próximos anos e alinhamento entre sócios e fundadores sobre essa visão.
Identificação e Desenvolvimento de Sucessores: Mapeamento de talentos internos, programa de vivência multifuncional, mentorias formais e educação continuada.
Estruturação de Governança: Constituição de Conselho de Administração, aprovação de acordo de sócios e definição de Protocolo Familiar.
Transição Gradual de Poderes: Transferência progressiva de responsabilidades, período de co-liderança e comunicação clara sobre o processo.
Consolidação e Adaptação: Assunção de controle pelo sucessor, revisão de estratégias e preparação para transições futuras.
Indicadores que Sinalizam Necessidade de Estruturação
Alguns indicadores sugerem a necessidade de revisão da estrutura societária:
Crescimento acelerado de faturamento sem revisão de processos internos; ausência de contrato social atualizado ou acordo de sócios; decisões concentradas em uma ou poucas pessoas; ausência de planejamento para afastamento temporário ou definitivo de sócios; conflitos recorrentes sobre distribuição de lucros ou reinvestimentos; múltiplos herdeiros sem regras claras de participação; e patrimônio pessoal e empresarial misturados.
Recomendações Práticas
Documentar adequadamente: Contrato social claro, cláusulas de conflito e protocolos de decisão documentados evitam a maioria das disputas societárias.
Separar pessoa física de jurídica: Fluxos de caixa, receitas e despesas distintos permitem visualizar a real situação financeira.
Implementar controles financeiros: Fluxo de caixa mensal, DRE Gerencial e indicadores de lucratividade.
Profissionalizar a gestão: Buscar assessoria especializada enquanto há margem para ajustes, não apenas em situações de crise.
Estabelecer planejamento sucessório antecipadamente: A preparação deve começar anos antes da transição efetiva.
Constituir órgãos consultivos: Mesmo em empresas menores, conselhos consultivos oferecem perspectiva externa valiosa.
Revisar periodicamente: Mercados mudam e estruturas precisam evoluir. Revisão periódica identifica riscos antes de se tornarem crises.
Conclusão
O fenômeno de empresas crescerem e encerrarem atividades sem perceber os sinais de deterioração é resultado previsível da ausência de estrutura societária adequada. A maioria opera sem planejamento formal, sem governança clara, sem sucessão estruturada e sem controles financeiros robustos.
Quando choques externos ocorrem — e ocorrem para todas as empresas em algum momento — aquelas sem margem de manobra enfrentam colapso rápido. A construção desse cenário, no entanto, levou anos de crescimento desordenado, operação informal e decisões não documentadas.
O planejamento societário estruturado combina escolha de tipo societário adequado, documentação contratual clara, governança corporativa adaptada ao porte, planejamento tributário estratégico e, para empresas familiares, sucessão estruturada e protocolos familiares. Empresas que implementam essas práticas apresentam maior capacidade de atravessar crises, escalar operações e transicionar entre gerações.
O momento adequado para estruturação é quando ainda não existem problemas. Planejamento preventivo oferece maior segurança jurídica e menor risco de questionamentos futuros.